Calar é o verbo invisível do nosso tempo: cala o corpo, cala o desejo, cala a crítica.
Calar! É o que a escola quer quando pede silêncio.
É o que a sociedade diz quando o sentir atrapalha a produção.
A escola, muitas vezes, é o primeiro lugar onde aprendemos a calar o corpo e a vontade.
Desde cedo, somos ensinados a sentar, silenciar, obedecer, reprimir o movimento e o desejo.
O erro é punido, Mas a dor não é nomeada, o tédio não é escutado.
A promessa é que, se seguirmos as regras, um dia seremos alguém.
Mas esse alguém é sempre uma forma já prevista: alguém que produz, alguém que rende, alguém que não sente demais, que não pensa demais, que não atrasa o ritmo da engrenagem.
A escola, que deveria ser lugar de despertar, muitas vezes funciona como um laboratório de anestesiar.
Ensina-se a suportar, não a compreender. Ensina-se a funcionar, não a existir.
E é assim que o silêncio deixa de ser apenas uma regra de comportamento e se torna um modo de funcionamento.
Ele aparece nas instituições, nas relações, sempre o mesmo: o que não escuta, o que não dialoga, o que apenas cala.
Quando alguém tenta dizer o que vê, o sistema responde como sempre: cala.
É nesse gesto que se revelam as engrenagens da injustiça, que não é um acidente, mas uma forma de ensinar a calar.
Você já parou pra pensar que pode estar havendo um embotamento social que produz desumanização?
Quando o mundo se organiza em torno do desempenho, sentir demais se torna perigoso.
Quem sente demais questiona.
Quem pensa demais desobedece.
Quem sofre demais atrapalha o fluxo do mercado.
Então a cultura inventa mil formas de anestesia.
A droga é uma delas.
Há drogas que paralisam, que excitam, que dopam o excesso,
mas há outras mais sofisticadas e aceitas:
as telas que hipnotizam,
os likes que alimentam,
a moda que promete beleza,
os venenos que vendem saúde,
os modos de ser que prometem sucesso.
Há também as que nos fazem falar, agir, render,
aquelas que transformam a exaustão em eficiência e o medo em performance.
E existem ainda as invisíveis, que não vêm em cápsulas,
mas se disfarçam de metas, de discursos e de promessas:
drogas que calam, que concentram, que produzem,
todas servindo ao mesmo propósito:
sustentar o corpo social automatizado e conservar intacta a aparência de normalidade que mantém o mundo girando.
A sociedade da performance precisa de sujeitos dopados, emocionalmente dopados, espiritualmente dopados, socialmente dopados.
Porque sujeitos acordados demais interrompem o lucro.
O corpo da droga é o espelho do nosso corpo coletivo.
O corpo arqueado de uma pessoa na rua chama a atenção para o ponto extremo onde a vulnerabilidade humana foi capaz de chegar.
É o reflexo ampliado do corpo de milhões que, em diferentes graus, vivem dobrados por dentro.
Dobrados pelo medo, pelo excesso, pela cobrança, pela falta de sentido.
Quando o sentido de existir é substituído pela obrigação de funcionar, o sofrimento se instala.
E o sofrimento, quando não pode ser simbolizado, busca o anestésico.
E então se fecha o ciclo perverso: a mesma sociedade que produz o sofrimento oferece o entorpecente que o apaga.
E depois criminaliza o sujeito que adormeceu.
Mas há uma brecha. Sempre há.
A crítica, a arte, a escuta, o afeto, o encontro — tudo isso são atos de desanestesia.
A psicologia histórico-cultural nos lembra que o humano se constitui mediado pela cultura, por meio das relações humanas, e que é nessas relações que pode despertar. Despertar, aqui, não é moralizar o uso da droga. É reconhecer o sistema que produz a necessidade dela. É perguntar, com honestidade e coragem, o que cada um de nós tem sido treinado a não sentir.
É quando o silêncio diz: basta, agora eu quero falar.